Saúde mental no contexto universitário

Quando pensamos em casa, quase sempre pensamos em pessoas, lugares ou experiências que nos fazem sentir pertencentes. Mas e quando estamos cercados de pessoas e ainda assim nos sentimos só?

Essa é uma realidade que pode estar presente também na vida universitária. Podemos frequentar aulas todos os dias, morar em uma república, participar de uma igreja, conversar com colegas e ainda assim não possuir uma rede de apoio significativa.

O isolamento social é a ausência de relacionamentos sociais ou laços significativos. A desconexão social pode aumentar o sentimento de solidão e, por sua vez, a solidão pode estar relacionada a maiores quantidades de sintomas de depressão e ansiedade. Ao mesmo tempo, esses sintomas também podem contribuir para o aumento da solidão e da desconexão social. Percebemos, então, que pode existir um ciclo.

Tanto a solidão quanto o isolamento social foram associados à depressão, emoções negativas, vício em smartphones e uso problemático da internet. Por outro lado, o apoio social e o senso de comunidade podem diminuir a solidão, estabelecendo uma relação de proteção.

A solidão também aparece com frequência na população universitária. Em alguns estudos, estudantes relatam se sentir especialmente solitários no primeiro ano da faculdade e atribuem essa solidão ao novo ambiente, à dificuldade de lidar com situações estressantes e à insatisfação nos relacionamentos.

No contexto nacional, o estudo do FONAPRACE (2019) indicou que 83,5% dos estudantes vivenciavam alguma dificuldade emocional que interferia em sua vida acadêmica e 23,7% indicaram que seus problemas emocionais impactavam seu desempenho acadêmico.

Diante disso, precisamos fazer uma pergunta: como nós, enquanto cristãos, respondemos ao sofrimento psicológico?

O cristão também sofre

Ser cristão não significa estar imune ao sofrimento psicológico.

A própria Bíblia apresenta pessoas que passaram por experiências de angústia, desespero e sofrimento. Temos Elias e Jó como exemplos de personagens bíblicos que enfrentaram situações de grande sofrimento.

Isso é importante porque podemos criar uma compreensão equivocada de que uma pessoa que tem fé deveria conseguir lidar facilmente com suas dificuldades. Mas a fé não elimina a nossa condição de criaturas vulneráveis.

Vivemos em um mundo marcado pela queda, e nele existem doenças, luto, deficiências e também sofrimento psicológico. Reconhecer isso não significa diminuir a importância da fé. Significa reconhecer a realidade em que vivemos.

Nem todo sofrimento psicológico pode ser reduzido a pecado ou falta de fé

Doenças mentais não devem ser simplesmente interpretadas como pecado ou possessão demoníaca.

Devemos tomar cuidado com o prejuízo de dizer a alguém que seu sofrimento é resultado da falta de fé ou de uma ação demoníaca. Isso pode dificultar a recuperação e afastar a pessoa da busca por tratamento.

Uma pessoa pode estar enfrentando uma condição psicológica que interfere na maneira como ela se relaciona, estuda, trabalha, participa da igreja ou desenvolve sua vida espiritual.

Isso não significa negar o pecado ou retirar a dimensão espiritual da vida cristã. Nem todo sofrimento psicológico é simplesmente uma questão de “orar mais”, “ter mais fé” ou “se esforçar mais”.

A vulnerabilidade também faz parte da vida cristã

Existe uma pressão para parecermos fortes.

Às vezes, dentro da própria comunidade cristã, podemos construir uma imagem de que precisamos estar sempre bem, produtivos, disponíveis, espiritualmente disciplinados e capazes de lidar com tudo.

Reconhecer nossas limitações, dificuldades e fraquezas não é necessariamente fracasso. Admitir “eu tenho uma fraqueza” exige coragem e humildade.

Por isso, precisamos ter cuidado para não transformar uma dificuldade já existente em mais uma fonte de culpa.

O sofrimento não precisa ser enfrentado sozinho

“Não é preciso caminhar sozinho. Divida o fardo.”

Devemos ver a Igreja como um lugar de comunhão, onde pessoas podem compartilhar dores e alegrias, confessar suas dificuldades e construir uma comunidade de apoio.

A Igreja não é apenas o lugar onde participamos de uma programação. Ela também deve ser um lugar onde alguém possa chegar e dizer: “Eu não estou bem.” E encontrar pessoas dispostas a permanecer próximas.

Isso é especialmente importante porque a solidão pode existir mesmo quando uma pessoa está cercada de gente.

A amizade também é parte desse cuidado

Pessoas que enfrentam ansiedade e depressão podem se afastar, ter dificuldades para responder mensagens, participar de atividades ou estar em ambientes com muitas pessoas. Esses comportamentos podem contribuir para um ciclo de maior isolamento.

Mas existe uma segunda parte importante: não basta dizer que alguém precisa de amigos.

É necessário que existam pessoas intencionais. Pessoas abertas, que acolham e procurem compreender a realidade do outro.

Às vezes, a diferença não está em criar mais uma atividade.

Pode estar em alguém perceber que determinado estudante sempre está sozinho e decidir sentar ao lado dele.

Pode estar em mandar uma mensagem depois da reunião.

Pode estar em convidar novamente alguém que recusou o primeiro convite.

Pode estar em perguntar como a pessoa está e realmente escutar a resposta.

Pequenas atitudes podem contribuir para a construção de vínculos e pertencimento.

Como conversar com alguém que está sofrendo?

Uma pessoa que está sofrendo pode estar sendo acompanhada por psicólogos, terapeutas ou psiquiatras e pode levar meses ou anos para apresentar melhora.

Não existe necessariamente uma solução rápida.

Então, em vez de imediatamente tentar solucionar o problema, podemos começar pela presença.

Algumas perguntas são simples:

“Eu posso não entender o que você está passando, mas estou aqui.”

“O que posso fazer para ajudar?”

“Você não é um fardo.”

Perguntar e demonstrar interesse genuíno permite compreender melhor as necessidades da pessoa.

A ideia não é oferecer uma frase mágica, mas comunicar que a pessoa não precisa atravessar aquele momento sozinha.

Cuidado também significa respeitar limites

Nós não conseguimos controlar ou consertar outra pessoa.

Não temos o poder de mudar o comportamento de alguém à força ou fazer com que ela simplesmente deixe de sofrer ou de se isolar.

Nosso papel pode ser oferecer presença, respeito, apoio e encorajamento para que a pessoa busque o cuidado necessário.

Acolher alguém não significa assumir a responsabilidade de resolver a vida daquela pessoa.

Significa caminhar com ela.

Fé e ajuda profissional não são opostas

Alguns cristãos sofrem em silêncio porque têm medo de demonstrar fraqueza, de serem julgados ou de ouvirem que deveriam simplesmente “entregar” a ansiedade ou a depressão a Deus.

Mas buscar ajuda profissional não precisa significar abandonar a fé.

Podemos orar, buscar a Deus, contar com a comunidade cristã e podemos procurar um psicólogo, psiquiatra ou outro profissional quando necessário.

São dimensões que não precisam competir entre si.

E qual é o papel da Igreja?

A Igreja deve ser um lugar em que podemos aprender a amar uns aos outros em nossas imperfeições.

É uma comunidade na qual podemos dividir dores e alegrias e construir relações de apoio e comunhão.

Então, quando pensamos no cristão e na saúde mental, não estamos falando apenas de:

“Como eu cuido da minha saúde mental?”

Também precisamos perguntar:

“Que tipo de comunidade estamos construindo para as pessoas que sofrem?”

E isso nos leva de volta à universidade.

Carlos pode estar passando dias sem conversar com ninguém.

Marcelo pode estar sendo convidado para uma reunião de oração, mas ainda não ter decidido participar.

Paula pode estar tão envolvida com suas atividades acadêmicas que seus vínculos estão diminuindo.

Nenhum deles necessariamente precisa chegar dizendo: “Estou sozinho.”

Por isso, uma comunidade saudável também precisa aprender a perceber, aproximar-se e permanecer.

A pergunta não é apenas:

“O que há de errado com essa pessoa?”

Mas:

“O que está acontecendo na vida dela? O que pode estar aumentando seu isolamento? Que recursos e vínculos ela já possui? Como podemos nos aproximar sem invadir? Como podemos caminhar com ela?”

E, quando necessário:

“Como podemos ajudá-la a chegar ao cuidado profissional adequado?”

A Igreja não precisa resolver todo sofrimento psicológico.

Mas pode ser um lugar onde alguém descubra que não precisa enfrentar sozinho.

“Venham a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei descanso a vocês. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para a alma. Pois o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.”

Mateus 11:28b-30

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